quinta-feira, 25 de julho de 2013

São Clemente Romano

Bispo de Roma durante os últimos anos do século I, São Clemente foi o terceiro sucessor de São Pedro, depois de Lino e Anacleto.

Pouco se sabe sobre os primeiros bispos de Roma, as informações e textos da época são escassos e em determinados casos, praticamente inexistente. Sobre Clemente a nossa melhor fonte é de Santo Ireneu, bispo de Leon até 202. Temos ainda textos do século IV e VI que falam sobre Clemente considerando-o, alguns, um mártir.

A Clemente é reconhecido um elevado prestígio e autoridade, todavia a única obra reconhecida de São Clemente é a "Carta aos Coríntios", as restantes obras ainda não foram confirmadas como textos de São Clemente. Esta carta é, segundo Eusébio de Cesareia, a grande «arquivista» dos primeiros textos sobre as origens cristãs. Segundo Eusébio, a carta é «da Igreja de Roma, à Igreja de Coríntio» (Hist. Eccl. 3,16). Esta obra, bastante importante, tem um «carácter quase canónico».

Nesta carta o bispo de Roma lamentava as perseguições as perseguições do Imperador Domiziano, ou seja, podemos datar a carta no ano de 96, após a morte e consequente fim das perseguições do mesmo.

A Igreja de Coríntio havia solicitado a intervenção de Clemente após o afastamento dos presbíteros daquela comunidade, devido a uma contestação levada a cabo por jovens contestadores. São Ireneu refere que esta carta foi uma mensagem da Igreja de Roma à Igreja de Coríntio para «reconciliar a paz, renovar a sua fé e anunciar a tradição que há pouco tempo tinha recebido dos Apóstolos» (Adv. haer. 3,3,3). Esta carta de Clemente retoma termos abordados por São Paulo nas suas duas cartas aos coríntios.

A sua carta proporcionou ao bispo de Roma a possibilidade de uma ampla intervenção sobre a Igreja e a sua missão e identidade. Clemente considera que os problemas ocorridos em Coríntio se deviam à falta de prática das duas virtudes cristãs (humildade e amor fraterno). São Clemente reforça, então, os deveres e funções dos leigos e dos sacerdotes distinguindo-os. É nesta carta que aparece pela primeira vez a palavra leigos, em grego laikós (o grego era a língua em que a carta se encontrava escrita), que significa "membro do povo de Deus".

São Clemente considerava que a Igreja era reunida através do «único Espírito de graça derramado sobre nós». Além disso, Clemente aborda, na carta, o tema da hierarquia da Igreja definindo-a e estabelecendo-a. Separa esta mesma hierarquia da comunidade de «leigos», estas duas deviam manter uma ligação. Ambos os dois «organismos» deviam exercer os seus ministérios «segundo a vocação recebida». São Clemente explicitou e aprofundou a doutrina da sucessão, considerava que «o Pai enviou Jesus Cristo, o qual por Sua vez enviou os Apóstolos. Depois, eles enviaram os primeiros chefes das comunidades e estabeleceram que lhe sucedessem outros homens dignos». Clemente esclarece, assim, que a estrutura da Igreja não é política, mas sim sacramental. Defende ainda que a Igreja não é dos Homens, mas sim, de Deus. O bispo de Roma agradeceu a Deus pela Sua providência de amor que, criou, santificou e salvou o Mundo. O bispo defendia que, tal como Cristo na Cruz, os cristãos deviam rezar pelos seus perseguidores, mesmo que estes os perseguissem. Defendia esta atitude, tendo como base de argumentação a ordem cristológica. Clemente reconheceu, ainda, na sua oração a legitimidade das autoridades políticas segundo a ordem estabelecida por Deus. Considerava que Deus era a outra soberania para além de César, não sendo a essência desta soberania, terrestre, mas sim «lá de cima».

Podemos assim concluir que a carta do bispo de Roma enviada à Igreja de Coríntio abordou inúmeros temas. Muitos destes temas são intemporais, sendo ainda hoje representativos da «solicitude da Igreja de Roma» que «preside na caridade a todas as outras Igrejas».


Texto baseado no livro - Padres e Doutores da Igreja, de Bento XVI

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